segunda-feira, 4 de maio de 2015

Vamos Arrumar o Nosso Quarto?


Li, reli, comentei com os meus amigos, li novamente e, até o momento, está difícil de digerir o ocorrido no município de São Francisco de Paula/RS, onde o juiz aconselhou uma das partes da demanda a trocar de advogado, tendo em vista a falta de acessibilidade naquele Fórum (http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2015/03/sem-acessibilidade-juiz-sugere-troca-de-advogado-cadeirante-em-audiencia.html).

O meu baque não é apenas pela ululante discriminação, mas sim pelo status de sacerdócio que, assim como os médicos, os magistrados possuem em nossa sociedade.

Aprendemos no início da graduação de Direito que o juiz é a encarnação da justiça, é quem, investido do poder de dizer quem está certo e quem está errado, decide os casos mais complexos, sempre podendo utilizar o Juízo de Valor, muito bem explicado pelo saudoso Miguel Reale.

Porém, verificamos no cotidiano que a lucidez para proferir uma sábia decisão é a exceção da regra, uma vez que – habitualmente – os magistrados demonstram a sensibilidade de um elefante para lidar com casos tão delicados como o presente (com todo respeito ao simpático animal de tromba).

O pior do imbróglio é o desabafo do nobre colega, ao afirmar se sentir prejudicial à justiça. Tudo isso por causa da decisão imediatista do Exmo. Carlos Eduardo Lima Pinto que, in casu, poderia utilizar uma das Fontes do Direito, o Costume, para determinar todas as adaptações e acessibilidades para as pessoas com deficiência.

Por falar em costume, lembrei-me do Prêmio Innovare, que desde 2004 fomenta a prática de métodos alternativos de gestão da política judiciária. Resolvi, então, fazer uma pesquisa do histórico das edições daquele programa (http://www.premioinnovare.com.br/premiacoes/) a fim de encontrar alguma proposta voltada as pessoas com deficiência e – inclusive – acessibilidade aos mesmos. Seria melhor não ter pesquisado.

O tema de 2008 chegou a chamar a minha atenção, sendo este “Justiça Para Todos: Democratização do Acesso à Justiça e Meios Alternativos para Resolução dos Conflitos”. O nome bateu na veia. Porém, nenhum trabalho exposto entre os finalistas dizia algo voltado às pessoas com deficiência, tampouco acessibilidade ao foro.

Portanto, alguma coisa não está “casando”. Num país – em desenvolvimento – onde a mídia gosta de comparar nossas medidas socioeducativas com aquelas aplicadas nos EUA e Reino Unido, não chegar a debater a – literal – estrutura do foro e demais repartições públicas, que – também literalmente – são a base de qualquer política, é um disparate.

Acredito que fazendo o trabalho de base, estaremos mais aptos a discutirmos tais questões e, consequentemente, diversas pessoas (inclusive muitos operadores do direito) deixarão de se sentir prejudiciais à Justiça, o que é muito prejudicial à Democracia.


Se já dizia Bill Gates, há tempos, que “antes de salvarmos o mundo, temos que arrumar o nosso quarto”; eu digo agora: não há quarto sem cama. Não há Justiça sem rampa.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Quem é 20 de novembro? Consciência!



Por Diogo Rodrigues e Sandro Parente.


Zumbi foi um dos poucos heróis da história negra que os nossos dominantes permitiram se perpetuar pelo tempo. Outros com certeza existiram, porém foram consumidos com o tempo e pelo desuso. Uns até questionam a real existência do quilombo dos palmares e até da existência do próprio Zumbi, mas o que importa nessa história de existências ou não?

O que importa é a representatividade, o mito, o imaginário que gera o gancho que permite a reflexão e a discussão sobre o que foi e o que é a luta de resistência do povo negro nesse país. O Zumbi poderia ser o Luiz Gama, José do Patrocínio, João Cândido, Tereza de Benguela, Laudelina de Campos Melo ou Mãe Menininha. O que importa para o dia 20 de novembro é a luta do povo negro na resistência, na história, música, religião etc.

É dia de discutir nuances do movimento negro, de ver, ouvir e sentir a dor e o prazer de ser negro nesse país. Nada mais justo, logicamente, que um dia para os movimentos organizarem o seu dia com atividades para toda a população poder participar, questionar e discutir o que é a questão racial no nosso Brasil, como ela se dá e quais as suas consequências para toda a população brasileira. Esta aí um feriado legitimo e que se justifica pela sua questão cidadã.

“Aaaah, meu bom juiz/ Não bata este martelo nem dê a sentença/ Antes de ouvir o que o meu samba diz”
É diante de todas essas convicções que me torna incompreensível a decisão do TJ-PR que revogou o dia 20 de Novembro como feriado na capital Curitiba a pedido da Associação Comercial estadual e do Sindicato da Construção Civil do Paraná alegando perdas de R$ 160 milhões ao dia de paralisação. Quem tem tantos feriados que podem perder seus feriados por feriados mais justificáveis a toda a sociedade, que remetem a cidadania, é a igreja católica, por exemplo, que possui diversos feriados ao longo do ano ou quem sabe o dia do próprio comércio, já que gera prejuízo.

A consciência contra o racismo, contra homofobia, machismo e pela valorização do indígena, entre outros, são quem merecem mais dias para mobilizar a população nacional pelas suas demandas, que olhando do ponto de vista de avanços sociais, merecem mais prioridades, visto que estes passam por uma proposta de inclusão, dismitificação de estereótipos e reconhecimento nacional enquanto segmento populacional desprovido de atenção pública.

Engraçado. Dia 15 de novembro enforcamos, ops, comemorarmos o dia da Proclamação da República. República que não foi proclamada, mas sim a primeira demonstração da insatisfação dos militares no país. Qualquer dúvida basta pesquisar nas páginas do livro “1889”, do Laurentino Gomes, o “historiador” mais queridinho do momento. Qual seria a reflexão – se você já fez – sobre a Proclamação da República? Que futuramente o próximo descontentamento militar acarretaria na “Revolução de 64”?

Agora, voltando para questão da etnia racial, verificamos que é uma questão extremamente relevante, desde o período colonial até a vanguarda. No último domingo – 17.nov.13 – Ancelmo Gois soltou a seguinte nota:

Desigualdade racial
No último IDH, que mede o chamado desenvolvimento humano, o Brasil, como sempre, não fez bonito: ficou em 85º no ranking das nações. Se avaliasse só a população branca, a posição seria um pouco melhor: 66º. Mas se abrangesse apenas os pretos e os pardos iria ainda mais para a rabeira: 103º. Os dados são de Marcelo Paixão, professor da UFRJ e coordenador do Laeser.”

Nota-se, então, que se trata de um dos temas mais relevantes da nossa cultura. Mas, mesmo com fartos motivos para existência do feriado, a Justiça do Paraná “enforcou” o feriado. Será que eles “enforcaram” a quarta-feira de cinzas?

Enfim. Poderia ficar dias, horas e ainda usar todas as palavras de qualquer dicionário do mundo, e ainda assim seria redundante, para falar do descaso do poder público com os segmentos populacionais brasileiros que não observam atenção do estado para as suas demandas.

Precisamos usar essas datas que marcam a importância desses movimentos e desses segmentos sociais para fazermos autorreflexão de como podemos contribuir e até onde podemos entender a opressão do outro, que é o que dignifica esse dia especial.

“É por isso que não temos sopa na colher/ E sim anjinhos pra dizer que o lado mal é o candomblé/ A energia vem do coração/ E a alma não se entrega não."

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Poeta, poetinha, camarada!


No último dia 19 de outubro o nosso querido Vinícius de Moraes completaria - se vivo estivesse – 100 anos de idade.

Várias comemorações aconteceram, de maneira justa, mas, acredito que não foram as músicas e poemas que o poetinha nos deixou como herança mais relevante. Na minha humilde opinião acredito que o “branco mais preto” tenha nos deixado o espírito despojado e sábio, uma grande marca registrada do carioca.

Faço questão abordar este ponto tendo em vista que o Vinícius quebrou o estereótipo do “menino-burguês-da-gávea-que-se-torna-diplomata-e-só-escuta-música-clássica”. Pelo contrário. A paixão pela história do Brasil e da cultura afro o fez abandonar a promissora carreira da diplomacia e adentrar para vida da arte.

Pronto! Inicia-se, então, a quebra do gelo social facultando a pessoas do seu mesmo nicho apreciarem a música “popular”, não ficando mais adstritos a norma “culta” daquela época. Além disso, Vinícius demonstrou que pessoas “estudadas” podem ter papos descontraídos – sem culpa - sobre futebol, mulher, religião etc.

Assim, tendo em vista essa quebra de paradigmas, começamos a entender melhor o espírito sério-despojado que o carioca faz questão de ostentar – inclusive – quando sai do RJ. Tudo bem que a admiração pelo carioca também englobam fatores políticos e midiáticos. Mas o Vinícius foi o marco teórico de que o carioca consegue, naturalmente, agir de maneira híbrida com as questões cotidianas, inclusive no trabalho (http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u104694.shtml).

Enfim, como admirador da arte e da antropologia, gostaria de deixar registrado por aqui o meu agradecimento pela sua existência e ter deixado o seu recado por meio do seu lirismo tão popular e sem barreiras sociais.

Existiria verdade, verdade que ninguém vê, se todos fossem no mundo iguais a você.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

DOÇURAS OU TRAVESSURAS!?


Texto em quatro mãos, feito por mim e por Rafael Cruz.




Mais um Halloween se aproxima e o folclore brasileiro se afasta cada vez mais. Segundo o dicionário, folclore significa a tradição e usos populares, constituído pelos costumes transmitidos de geração em geração.

Neste diapasão, sinto falta do hábito que acompanhei durante a infância, sendo aquela corrida das crianças atrás do tão desejado saco de doces. Alvas balas "Juquinha", as azedinhas de tamarindo harmonizadas com os suspiros, "Gamadinhos" e até pedaços de bolo de fubá num singelo saquinho de Cosme e Damião. Atualmente as crianças cultuam mais o Halloween do que a saudosa comemoração de 27 de setembro. O que estou fazendo não é um apelo religioso, mas sim apontando a perda dum folclore - morfologicamente falando - para aquilo que vem de fora.

Vivemos no país laico, que não sofre influência religiosa. No entanto, diversos hábitos do nosso cotidiano foram originados pelos costumes religiosos, como o almoço de domingo em família. Desta forma, me sinto mais à vontade de me manifestar no sentido de lamentar mais uma perda de identidade. Enquanto isso, aprendemos a comer Hot Pocket, a achar o Halloween legal, mas sem sabermos o motivo etc.

Esse fato é apenas mais um reflexo do processo de assimilação da cultura estadunidense, principalmente das classes com maior poder aquisitivo de nossa sociedade. É comum as escolas, principalmente as particulares, realizarem atividades sobre o "Dia das Bruxas", girando inclusive em torno da troca de doces. Já o feriado de São Cosme e Damião fica mais restrito às classes mais populares. No dia desses santos, por exemplo, não posso marcar nenhuma atividade em minha escola, tendo em vista que a frequência é baixíssima. As crianças do subúrbio ainda correm atrás de seus saquinhos de doces. Já nos bairros com uma população de melhor poder aquisitivo, não há quase distribuição de doces. Não me convence a justificativa que algumas religiões não acreditam em santos, por isso a festa vem sendo deixada de lado. Essas mesmas religiões acreditam em bruxas então?

A grande questão é que nossa elite sempre buscou imitar a cultura das potências de seu período; já foram Portugal, Inglaterra, França, e hoje os Estados Unidos. A supervalorização do que é estadunidense, como a música, cerveja, tipo de restaurante, roupas, filmes, enfim, tudo se reflete também nas escolhas culturais. Assim, valoriza-se uma festa que não é nossa, e deixa-se de lado um feriado que é muito mais que religioso, já fazendo parte de nosso folclore. Devemos incentivar e festejar nossa cultura, sem nenhuma afirmação fascista ou xenófoba de eliminar qualquer elemento cultural que venha de fora. Até porque, a característica marcante de nosso país é a mistura. Todavia, não podemos deixar totalmente de lado nossa cultura.

Mas como nenhum império durou para sempre, esperamos o fim da supremacia dos """Americanos""", tanto na economia como na cultura. Até lá, seguiremos imitando o que vem de cima, sem capacidade de pensar e criar, apenas repetindo.  Até porque, por essas terras, quando o povo faz uma travessura não ganha doces, reza pra São Cosme e São Damião.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

É assim e é meu



Texto do meu amado amigo Diogo da Silva Rodrigues

"Um romance americano, isto é, editável nos Estados Unidos (...). Meio à Wells, com visão do futuro. O clou será o choque da raça negra com a branca, quando a primeira, cujo índice de proliferação é maior, alcançar a raça branca e batê-la nas urnas, elegendo um presidente negro! Acontecem coisas tremendas, mas vence por fim a inteligência do branco. Consegue por meio de raios N. inventados pelo professor Brown, esterilizar os negros sem que estes se dêem pela coisa".1

“Resumindo bastante, as coisas tremendas são: em 2.228, três partidos concorrem às eleições presidenciais americanas. O partido dos homens brancos, que pretende reeleger o presidente Kerlog, o partido das mulheres, que concorre com a feminista Evelyn Astor, e o partido dos negros, representado por Jim Roy. Com a divisão dos brancos entre homens e mulheres, os negros se tornam maioria e Jim Roy é eleito. Não se conformando com a derrota, homens e mulheres brancos se unem e usam "a inteligência" para eliminar a raça negra, através de uma substância esterilizante colocada em um produto para alisamento de cabelos crespos”. 2

Observe que o autor desse texto, Monteiro Lobato, correlaciona questões políticas entre negros e brancos e faz um desfecho que seria exterminar os negros com o alisante para cabelos crespos. Parece uma isca a questão do alisamento de cabelos, os brancos tinham convicção que os negros continuariam com aquele ato. Pois compreendiam que mesmo alcançando a presidência, não era uma questão própria dos negros, alcançar o posto de presidente, e sim uma questão de copiá-los, de seguir o que os brancos faziam. Isso demonstra mais uma forma de vermos o fardo, a carga ideológica e política dos efeitos dos alisamentos, o quanto essa atitude tem significados políticos e sociais.

 No texto acima, o autor pretende na história, “eliminar a raça negra, através de uma substância esterilizante colocada em um produto para alisamento de cabelos crespos.” Essa ideia, além de cruel, seria muito funcional, pois nesta época nos EUA a grande parte dos negros alisavam os cabelos. Eles também se rendiam a esta forma de colonização, por mais que eles tivessem uma consciência madura com relação às questões sociais e políticas que lhe atingiam. Enquanto o Brasil negava o racismo, em 1960, eles já tinham um movimento negro articulado nos EUA. Mas porque eles se rendiam a esse padrão de estética branco ao mesmo tempo em que lutavam por direitos iguais e inserção social? Por mais que o movimento negro deles fosse bem articulado com relação às questões negras, eles por duas vezes na história assumem o cabelo alisado.

Primeiro eles se escondem por trás de uma camuflagem que Bell Hooks define como tradição íntima em seu texto “Alisando nossos Cabelos”, onde relata que as mulheres negras justificavam alisar seus cabelos por causa do momento especial que elas tinham em suas cozinhas, só para elas, atendendo somente às suas necessidades, e que o alisamento do cabelo também era a representação da transição da fase de adolescente para a fase adulta.

Após a década de 1960 se questiona pela primeira vez o cabelo alisado como forma de reprodução colonial. Inicia-se em um movimento pró-cabelos naturais e depois dessa década os negros nos EUA regressam aos cabelos alisados sem aquela forma íntima ou cultural por trás do processo, pois as mulheres já não alisavam mais os seus cabelos nas suas cozinhas e sim nos salões de beleza. Era simplesmente o movimento que antes era escondido por trás da tradição íntima. Era o movimento claro de seguir um padrão de beleza, de reproduzir o que a sociedade aceitava como bonito.

Todas essas relações de convivência entre colonizados, negros ou não, com os seus colonizadores ao entorno do mundo é sem dúvida muito importante, porém quero falar sobre o quanto nós negros e colonizados continuamos a seguir padrões impostos, que já não condizem mais com o nosso modo de vida. Ou ainda se precisamos repensar nossos atos e se eles condizem com a nossa concepção contemporânea.

Essa análise é importante porque acabamos tendendo a reproduzir nossos atos sem correlaciona-los com nossas transformações intelectuais. Em especial nesse contexto de padrões imposto por pressões sociais externas e atitudes reproduzidas. Quero tocar na ferida do cabelo alisado. Lembro-me da minha infância e adolescência na casa de minha avó paterna, a qual ficou comigo durante um tempo para meus pais trabalharem e onde eu passava a maioria dos meus finais de semana, pois lá moravam alguns dos meus primos. E desses meus primos nenhum se autodeclarava negro e eu por ter a tonalidade mais escura na pele nunca tive o direto de me autodeclarar. A pigmentação da minha pele sempre deixou bem claro quem eu era: negro declarado pela herança da pele e hoje pela consciência e orgulho de ser quem sou.

Recordo-me com muita clareza o quanto o cabelo sempre foi uma questão de status, tanto entre os meninos quanto entre as meninas. Lógico que existiam outras características também como a cor da pele, olhos claros e etc. Mas o cabelo parecia que era a carta de recomendação para ser aceito naquela sociedade mirim. E lembro o dia em que alisei o meu. Ficou díspar com as minhas características, eu não gostei muito, porque meu cabelo ficou arrepiado e não era assim que eu queria. Eu ainda alisei o meu cabelo por mais muitas vezes, e o black-power, a trança, o dread nem passavam pela minha cabeça. Eram inexistentes na minha sociedade e eu também queria ter aquele argumento, seja entre as meninas ou os meninos, que eu também tinha o cabelo liso. E quando desisti do cabelo liso só me restou um corte de cabelo, o careca. Porque careca? Porque como se diz nas barbearias: “o mal tem que se cortar pela raiz”. Quem tem o cabelo crespo não tem o direito de cortar o cabelo como bem entende igual quem tem o cabelo liso. Os homens de cabelo crespo nem pensam em pedir para cortar o cabelo na tesoura. Se pedem algum dia ouvem os mais preconceituosos comentários. Homem ridicularizado no barbeiro, dentro da sociedade masculina, é um contexto complexo para nossa sociedade machista. Eles evitam ousar no penteado!

Fico avaliando o quanto se reproduz o estereótipo do cabelo liso mesmo quando não nos convém. E reproduzir quando não convém me parece que encaixa certinho com alisar cabelo. Lógico que existem suas exceções: há quem alise o cabelo mesmo tendo a consciência da representatividade e o arquétipo que se carrega com essa característica. Porém não pode deixar de negar que sem um argumento fundamentado sobre todas as questões que envolvem alisar os cabelos, logo se torna mais um.

Hoje sofremos um processo de revolução com relação a essa questão de aceitação do cabelo. Ainda que sem questão ideológica, política ou social a realidade é que hoje as mulheres de cabelo crespo conseguem se enxergar nas ruas. Elas conseguem passar pelas mulheres de cabelo escorrido e olhar para elas de igual para igual e não aquele olhar de inferioridade, de “O meu cabelo é liso, mas nunca será com o dela”.

A postura hoje é outra, as mulheres se orgulham do seu cabelo, do cabelo diferente, do cabelo com pouca alteração química e física. Isso se chama reencontro da identidade e digo que os salões de beleza afro vêm devolvendo isso às mulheres. Citaria como o maior representante dos tempos atuais no que diz respeito à estética negra, o Beleza Natural, no Rio de Janeiro.

Não quero dizer aqui que a Zica, dona do Beleza Natural, é militante do movimento de reencontro da identidade negra, mas sim que ela desenvolveu um estudo em cima de um segmento que poderia dar dinheiro sim, em potencial, mas que mesmo esse potencial existindo ninguém nunca tinha feito esse trabalho. E a Zica e seus sócios não abriram um salão na Vieira Souto e sim na Vinte e Cinco de Agosto, em Duque de Caxias, Baixada-Fluminense - Região do Rio de Janeiro com número expressivo de negros e pobres.

A importância simbólica do Beleza Natural é que ele penetra em um espaço complexo de se falar da consciência da identidade negra – as regiões marginais, onde essa transformação estética só aconteceria com muitos anos de trabalho de conscientização, uma vez que a identidade estética é resultado da consciência.

 Da mesma forma que muitas empresas que fazem produtos destinados à população negra e que ajudam a aumentar a autoestima desta não têm uma questão política por de trás dessa atitude. Muitos negros que fazem uso destes produtos também não assimilam a questão política, cultural e social por trás das suas escolhas. Mas o que importa? Importa é que junto com essas empresas e com nós negros que consumimos essas marcas e produtos, estamos ajudando a cristalizar na sociedade a diversidade da cultura negra junto com a cultura branca.

Digo sempre que uma atitude importante sem consciência abre precedente para quem tem consciência refletir a respeito e acho que, com relação a essa questão, com intenção ou não, o Beleza Natural abriu esse precedente. Os salões de beleza da cidade do Rio de Janeiro eram em grande maioria especializados em escovas de todas as partes do mundo e com uma variedade imensa de produtos para esse tipo de serviço. Recordo-me da escova marroquina, japonesa, com formol, sem formol entre outras com aquele comercial de sempre: “Aqui você realiza o sonho do cabelo liso”. E quem não se lembra do “Aqui você entra bruxinha e sai fadinha” que passava em um programa de funk na CNT, na década de 1990 e que tinha como público alvo a população negra e carente do Rio de Janeiro?

E hoje, além de todas essas escovas encontramos também o tratamento capilar para os cabelos cacheados, black-power e tranças para as mais diversas formas de cabelos crespos. Vale um adendo: ainda existe muito a ser melhorado com relação às variedades dos salões de beleza afro e especialização nas formas mais diversas de cabelos crespos. O melhor nesses salões que cuidam da beleza negra é que as propagandas são com mulheres e homens de cabelos crespos.

Em grande parte dos produtos não conseguimos enxergar nas propagandas os negros ou os cabelos crespos e nem se contentar com o uso de alguns produtos. Só tem shampoo se alisar o cabelo, só tem o desodorante feito para o biótipo dos brancos. Somos diferentes e precisamos de produtos de acordo com o nosso biótipo. Queremos andar bem arrumados, cheirosos, com a pele bem cuidada como todo mundo gosta de andar. Como resolvemos se não tem nossos produtos no mercado e somos maioria da população? Comprando, cada vez mais e mais? Será que estamos reproduzindo de novo? Ou será que devemos mudar experimentar e pesquisar?

Olhe para trás, depois olhe para frente e reflita! O que está igual? Será que não tem algo a ser transformado? Acredito que é essa a analise que temos que fazer todos os dias sobre o que fazemos e onde queremos chegar com nossas atitudes e como vamos influenciar e demonstrar nossa postura para os nossos novos rumos. Repensar é o primeiro passo para um processo de transformação. E já chegou a hora desse Brasilzão começar esse processo a partir do repensar e não do reproduzir! A diversidade está aqui como todos dizem, mas ela tem que ser plena!

É como Chimamanda Adichie diz em: “O Perigo da História Única”3. Nesse vídeo ela diz que o perigo da verdade única é que tendemos a anular o outro lado que também é verdadeiro. A escritora fala sobre o caso específico da anulação da identidade negra através das literaturas e o quão é perigoso assumimos uma só verdade sobre tudo no mundo. Adichie faz uma citação interessante, ”Quando você se abre para o desconhecido você encontra o paraíso”.


Isso serve para pensar na nossa questão, pois enquanto não conhecíamos nenhuma forma da beleza negra, a beleza branca era soberana. Hoje com os salões para beleza negra e produtos para negros, ainda que muito limitados, conseguimos achar o nosso paraíso individual que é a nossa autoestima e identidade.

Agradecimentos a Cristina Lopes  pela orientação e revisão.
“ Sem os amigos até os pequenos cerros são difíceis de serem atravessados”


1 A barca de Gleyre. Quarenta anos de correspondência literária entre Monteiro Lobato e
Godofredo Rangel. São Paulo: Brasiliense, 1950. Literatura Geral. Obras Completas, XXII, 2 v.
2 Último acesso em setembro de 2012
http://www.idelberavelar.com/archives/2010/11/nao_e_sobre_voce_que_devemos_falar_por_ana_maria_goncalves.php
3 Último acesso em
http://www.ted.com/talks/lang/pt/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story.html

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A Estrada Vai Além do Que Se Vê


O bonequinho do “O Globo” sentado já não escondia que o filme não seria nenhum best seller. A Dayane se decepcionou porque esperava atuações melhores do Tom Hanks e da Julia Riberts.


No entanto, “Larry Crowne” relata o cotidiano do norteamericano nos últimos três anos. LC – Hanks – é um cinquentão funcionário de uma cadeia de hipermercados de onde é demitido por não ter ensino superior. Logo, tendo em vista a crise financeira - existem poucas ofertas de emprego e grande procura do mesmo -, a situação atual requer melhores qualificações do candidato.


A partir deste imbróglio, o personagem principal ingressa na faculdade a fim de buscar o tempo perdido. Aprende os mais básicos princípios da economia, cria novas e interessantes amizades e, como acontece na maioria das vidas dos alunos, se apaixona pela professora Mercedes Tainot (Roberts).


Neste caso, por se tratar de um clichê “hollywoodiano”, os dois ficam juntos e felizes. Com certeza os protagonistas não tiveram atuações marcantes como em “Philadelphia” ou “Uma Linda Mulher”. Mas, dentro de uma visão macro da conjuntura atual, o filme transmite aos “Larrys” da vida real um incentivo que, aos 50 anos, se pode sim iniciar a vida acadêmica.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Respeito aos Africanos!


Ano passado tivemos a oportunidade de assistir a Copa do Mundo realizada na África do Sul. Não foram apenas os jogos de futebol que assistimos. Assistimos, também, a intolerância que a maioria absoluta do resto do mundo têm com as típicas manifestações africanas. Mas que manifestação seria? A Vuvuzela!

Alguém já imaginou o desconforto em realizar uma festa, em sua própria casa, sem poder colocar suas músicas prediletas? Foi quase isso o que aconteceu naquele torneio. O agravante é que o pessoal que tanto “cornetou” a corneta local é o mesmo pessoal que em outras épocas apoiaram a democracia na África do Sul, a fim de colocarem um ponto final ao regime do apartheid (*1948 / +1994).

Logo nesse país, por onde a segregação racial rondou, explicitamente, por mais de 40 anos com banheiros “de branco” e “de preto”, bairros e lugares públicos segregados com esse mesmo parâmetro, em 2010 os gringos por lá retornam e pedem “silêncio” desse povo sofrido que viveu calado por tanto tempo!

Engraçado: numa missão de paz, a CBF resolveu promover em 2004 um amistoso no Haiti contra a seleção local. Segundo a Confederação, “em busca da alegria para o povo haitiano”. No entanto, os africanos buscaram essa tal alegria com suas cornetas e a nossa seleção solicitou a proibição das vuvuzelas em suas partidas. Numa decisão coerente, o presidente da FIFA, Joseph Blatter, vetou tal solicitação.

A moral da história ainda é essa: ainda invadimos o berço da humanidade com um olhar soberbo para os que por lá moram e não nos esforçamos em ajudar a fortificar suas lindas e ricas raízes. Os infinitos recursos naturais da Amazônia fazem parte do patrimônio mundial. Mas a fome que reina em boa parte dos países da África pertence a...ÁFRICA. Filho feio ninguém quer...

"Batuque na cozinha Sinhá não quer, por causa do batuque eu queimei meu pé"