Texto do meu amado amigo Diogo da Silva Rodrigues
"Um romance
americano, isto é, editável nos Estados Unidos (...). Meio à Wells, com visão
do futuro. O clou será o choque da raça negra com a branca, quando a primeira, cujo
índice de proliferação é maior, alcançar a raça branca e batê-la nas urnas, elegendo
um presidente negro! Acontecem coisas tremendas, mas vence por fim a inteligência
do branco. Consegue por meio de raios N. inventados pelo professor Brown,
esterilizar os negros sem que estes se dêem pela coisa".1
“Resumindo
bastante, as coisas tremendas são: em 2.228, três partidos concorrem às eleições
presidenciais americanas. O partido dos homens brancos, que pretende reeleger o
presidente Kerlog, o partido das mulheres, que concorre com a feminista Evelyn
Astor, e o partido dos negros, representado por Jim Roy. Com a divisão dos brancos
entre homens e mulheres, os negros se tornam maioria e Jim Roy é eleito. Não se
conformando com a derrota, homens e mulheres brancos se unem e usam "a inteligência"
para eliminar a raça negra, através de uma substância esterilizante colocada em
um produto para alisamento de cabelos crespos”. 2
Observe que o
autor desse texto, Monteiro Lobato, correlaciona questões políticas entre
negros e brancos e faz um desfecho que seria exterminar os negros com o alisante
para cabelos crespos. Parece uma isca a questão do alisamento de cabelos, os brancos
tinham convicção que os negros continuariam com aquele ato. Pois compreendiam
que mesmo alcançando a presidência, não era uma questão própria dos negros,
alcançar o posto de presidente, e sim uma questão de copiá-los, de seguir o que
os brancos faziam. Isso demonstra mais uma forma de vermos o fardo, a carga ideológica
e política dos efeitos dos alisamentos, o quanto essa atitude tem significados
políticos e sociais.
No texto acima, o autor pretende na história,
“eliminar a raça negra, através de uma substância esterilizante colocada em um
produto para alisamento de cabelos crespos.” Essa ideia, além de cruel, seria
muito funcional, pois nesta época nos EUA a grande parte dos negros alisavam os
cabelos. Eles também se rendiam a esta forma de colonização, por mais que eles
tivessem uma consciência madura com relação às questões sociais e políticas que
lhe atingiam. Enquanto o Brasil negava o racismo, em 1960, eles já tinham um
movimento negro articulado nos EUA. Mas porque eles se rendiam a esse padrão de
estética branco ao mesmo tempo em que lutavam por direitos iguais e inserção
social? Por mais que o movimento negro deles fosse bem articulado com relação
às questões negras, eles por duas vezes na história assumem o cabelo alisado.
Primeiro eles se
escondem por trás de uma camuflagem que Bell Hooks define como tradição íntima
em seu texto “Alisando nossos Cabelos”, onde relata que as mulheres negras
justificavam alisar seus cabelos por causa do momento especial que elas tinham em
suas cozinhas, só para elas, atendendo somente às suas necessidades, e que o alisamento
do cabelo também era a representação da transição da fase de adolescente para a
fase adulta.
Após a década de
1960 se questiona pela primeira vez o cabelo alisado como forma de reprodução
colonial. Inicia-se em um movimento pró-cabelos naturais e depois dessa década
os negros nos EUA regressam aos cabelos alisados sem aquela forma íntima ou cultural
por trás do processo, pois as mulheres já não alisavam mais os seus cabelos nas
suas cozinhas e sim nos salões de beleza. Era simplesmente o movimento que antes
era escondido por trás da tradição íntima. Era o movimento claro de seguir um padrão
de beleza, de reproduzir o que a sociedade aceitava como bonito.
Todas essas
relações de convivência entre colonizados, negros ou não, com os seus colonizadores
ao entorno do mundo é sem dúvida muito importante, porém quero falar sobre o
quanto nós negros e colonizados continuamos a seguir padrões impostos, que já
não condizem mais com o nosso modo de vida. Ou ainda se precisamos repensar
nossos atos e se eles condizem com a nossa concepção contemporânea.
Essa análise é
importante porque acabamos tendendo a reproduzir nossos atos sem correlaciona-los
com nossas transformações intelectuais. Em especial nesse contexto de padrões
imposto por pressões sociais externas e atitudes reproduzidas. Quero tocar na
ferida do cabelo alisado. Lembro-me da minha infância e adolescência na casa de
minha avó paterna, a qual ficou comigo durante um tempo para meus pais
trabalharem e onde eu passava a maioria dos meus finais de semana, pois lá
moravam alguns dos meus primos. E desses meus primos nenhum se autodeclarava
negro e eu por ter a tonalidade mais escura na pele nunca tive o direto de me
autodeclarar. A pigmentação da minha pele sempre deixou bem claro quem eu era:
negro declarado pela herança da pele e hoje pela consciência e orgulho de ser
quem sou.
Recordo-me com
muita clareza o quanto o cabelo sempre foi uma questão de status, tanto entre
os meninos quanto entre as meninas. Lógico que existiam outras características
também como a cor da pele, olhos claros e etc. Mas o cabelo parecia que era a
carta de recomendação para ser aceito naquela sociedade mirim. E lembro o dia
em que alisei o meu. Ficou díspar com as minhas características, eu não gostei muito,
porque meu cabelo ficou arrepiado e não era assim que eu queria. Eu ainda alisei
o meu cabelo por mais muitas vezes, e o black-power, a trança, o dread nem passavam
pela minha cabeça. Eram inexistentes na minha sociedade e eu também queria ter
aquele argumento, seja entre as meninas ou os meninos, que eu também tinha o
cabelo liso. E quando desisti do cabelo liso só me restou um corte de cabelo, o
careca. Porque careca? Porque como se diz nas barbearias: “o mal tem que se
cortar pela raiz”. Quem tem o cabelo crespo não tem o direito de cortar o
cabelo como bem entende igual quem tem o cabelo liso. Os homens de cabelo
crespo nem pensam em pedir para cortar o cabelo na tesoura. Se pedem algum dia
ouvem os mais preconceituosos comentários. Homem ridicularizado no barbeiro,
dentro da sociedade masculina, é um contexto complexo para nossa sociedade
machista. Eles evitam ousar no penteado!
Fico avaliando o
quanto se reproduz o estereótipo do cabelo liso mesmo quando não nos convém. E
reproduzir quando não convém me parece que encaixa certinho com alisar cabelo.
Lógico que existem suas exceções: há quem alise o cabelo mesmo tendo a
consciência da representatividade e o arquétipo que se carrega com essa característica.
Porém não pode deixar de negar que sem um argumento fundamentado sobre todas as
questões que envolvem alisar os cabelos, logo se torna mais um.
Hoje sofremos um
processo de revolução com relação a essa questão de aceitação do cabelo. Ainda
que sem questão ideológica, política ou social a realidade é que hoje as mulheres
de cabelo crespo conseguem se enxergar nas ruas. Elas conseguem passar pelas
mulheres de cabelo escorrido e olhar para elas de igual para igual e não aquele
olhar de inferioridade, de “O meu cabelo é liso, mas nunca será com o dela”.
A postura hoje é
outra, as mulheres se orgulham do seu cabelo, do cabelo diferente, do cabelo
com pouca alteração química e física. Isso se chama reencontro da identidade e
digo que os salões de beleza afro vêm devolvendo isso às mulheres. Citaria como
o maior representante dos tempos atuais no que diz respeito à estética negra, o
Beleza Natural, no Rio de Janeiro.
Não quero dizer
aqui que a Zica, dona do Beleza Natural, é militante do movimento de reencontro
da identidade negra, mas sim que ela desenvolveu um estudo em cima de um
segmento que poderia dar dinheiro sim, em potencial, mas que mesmo esse potencial
existindo ninguém nunca tinha feito esse trabalho. E a Zica e seus sócios não abriram
um salão na Vieira Souto e sim na Vinte e Cinco de Agosto, em Duque de Caxias,
Baixada-Fluminense - Região do Rio de Janeiro com número expressivo de negros e
pobres.
A importância
simbólica do Beleza Natural é que ele penetra em um espaço complexo de se falar
da consciência da identidade negra – as regiões marginais, onde essa transformação
estética só aconteceria com muitos anos de trabalho de conscientização, uma vez
que a identidade estética é resultado da consciência.
Da mesma forma que muitas empresas que fazem
produtos destinados à população negra e que ajudam a aumentar a autoestima
desta não têm uma questão política por de trás dessa atitude. Muitos negros que
fazem uso destes produtos também não assimilam a questão política, cultural e
social por trás das suas escolhas. Mas o que importa? Importa é que junto com
essas empresas e com nós negros que consumimos essas marcas e produtos, estamos
ajudando a cristalizar na sociedade a diversidade da cultura negra junto com a
cultura branca.
Digo sempre que
uma atitude importante sem consciência abre precedente para quem tem
consciência refletir a respeito e acho que, com relação a essa questão, com intenção
ou não, o Beleza Natural abriu esse precedente. Os salões de beleza da cidade
do Rio de Janeiro eram em grande maioria especializados em escovas de todas as
partes do mundo e com uma variedade imensa de produtos para esse tipo de serviço.
Recordo-me da escova marroquina, japonesa, com formol, sem formol entre outras
com aquele comercial de sempre: “Aqui você realiza o sonho do cabelo liso”. E quem
não se lembra do “Aqui você entra bruxinha e sai fadinha” que passava em um programa
de funk na CNT, na década de 1990 e que tinha como público alvo a população
negra e carente do Rio de Janeiro?
E hoje, além de
todas essas escovas encontramos também o tratamento capilar para os cabelos
cacheados, black-power e tranças para as mais diversas formas de cabelos crespos.
Vale um adendo: ainda existe muito a ser melhorado com relação às variedades
dos salões de beleza afro e especialização nas formas mais diversas de cabelos
crespos. O melhor nesses salões que cuidam da beleza negra é que as propagandas
são com mulheres e homens de cabelos crespos.
Em grande parte
dos produtos não conseguimos enxergar nas propagandas os negros ou os cabelos
crespos e nem se contentar com o uso de alguns produtos. Só tem shampoo se
alisar o cabelo, só tem o desodorante feito para o biótipo dos brancos. Somos
diferentes e precisamos de produtos de acordo com o nosso biótipo. Queremos andar
bem arrumados, cheirosos, com a pele bem cuidada como todo mundo gosta de andar.
Como resolvemos se não tem nossos produtos no mercado e somos maioria da população?
Comprando, cada vez mais e mais? Será que estamos reproduzindo de novo? Ou será
que devemos mudar experimentar e pesquisar?
Olhe para trás,
depois olhe para frente e reflita! O que está igual? Será que não tem algo a
ser transformado? Acredito que é essa a analise que temos que fazer todos os dias
sobre o que fazemos e onde queremos chegar com nossas atitudes e como vamos influenciar
e demonstrar nossa postura para os nossos novos rumos. Repensar é o primeiro
passo para um processo de transformação. E já chegou a hora desse Brasilzão começar
esse processo a partir do repensar e não do reproduzir! A diversidade está aqui
como todos dizem, mas ela tem que ser plena!
É como
Chimamanda Adichie diz em: “O Perigo da História Única”3. Nesse vídeo ela diz que
o perigo da verdade única é que tendemos a anular o outro lado que também é verdadeiro.
A escritora fala sobre o caso específico da anulação da identidade negra através
das literaturas e o quão é perigoso assumimos uma só verdade sobre tudo no mundo.
Adichie faz uma citação interessante, ”Quando você se abre para o desconhecido
você encontra o paraíso”.
Isso serve para
pensar na nossa questão, pois enquanto não conhecíamos nenhuma forma da beleza
negra, a beleza branca era soberana. Hoje com os salões para beleza negra e
produtos para negros, ainda que muito limitados, conseguimos achar o nosso paraíso
individual que é a nossa autoestima e identidade.
Agradecimentos a
Cristina Lopes pela orientação e
revisão.
“ Sem os amigos
até os pequenos cerros são difíceis de serem atravessados”
1 A barca de Gleyre. Quarenta anos de
correspondência literária entre Monteiro Lobato e
Godofredo Rangel. São Paulo:
Brasiliense, 1950. Literatura Geral. Obras Completas, XXII, 2 v.
2 Último acesso em setembro de 2012
http://www.idelberavelar.com/archives/2010/11/nao_e_sobre_voce_que_devemos_falar_por_ana_maria_goncalves.php
3 Último acesso em
http://www.ted.com/talks/lang/pt/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story.html
