Texto em quatro mãos, feito por mim e por Rafael Cruz.
Mais um Halloween se aproxima e o folclore brasileiro se afasta cada vez
mais. Segundo o dicionário, folclore significa a tradição e usos populares,
constituído pelos costumes transmitidos de geração em geração.
Neste diapasão, sinto falta do hábito que acompanhei durante a infância,
sendo aquela corrida das crianças atrás do tão desejado saco de doces. Alvas
balas "Juquinha", as azedinhas de tamarindo harmonizadas com os
suspiros, "Gamadinhos" e até pedaços de bolo de fubá num singelo
saquinho de Cosme e Damião. Atualmente as crianças cultuam mais o Halloween do
que a saudosa comemoração de 27 de setembro. O que estou fazendo não é um apelo
religioso, mas sim apontando a perda dum folclore - morfologicamente falando -
para aquilo que vem de fora.
Vivemos no país laico, que não sofre influência religiosa.
No entanto, diversos hábitos do nosso cotidiano foram originados pelos costumes
religiosos, como o almoço de domingo em família. Desta forma, me sinto mais à
vontade de me manifestar no sentido de lamentar mais uma perda de identidade.
Enquanto isso, aprendemos a comer Hot Pocket, a achar o Halloween legal, mas
sem sabermos o motivo etc.
Esse fato é apenas mais um reflexo do processo de assimilação da cultura
estadunidense, principalmente das classes com maior poder aquisitivo de nossa
sociedade. É comum as escolas, principalmente as particulares, realizarem
atividades sobre o "Dia das Bruxas", girando inclusive em torno
da troca de doces. Já o feriado de São Cosme e Damião fica mais restrito
às classes mais populares. No dia desses santos, por exemplo, não posso marcar
nenhuma atividade em minha escola, tendo em vista que a frequência é
baixíssima. As crianças do subúrbio ainda correm atrás de seus saquinhos
de doces. Já nos bairros com uma população de melhor poder aquisitivo, não há
quase distribuição de doces. Não me convence a justificativa que algumas
religiões não acreditam em santos, por isso a festa vem sendo deixada de lado.
Essas mesmas religiões acreditam em bruxas então?
A grande questão é que nossa elite sempre buscou imitar a cultura das
potências de seu período; já foram Portugal, Inglaterra, França, e hoje os
Estados Unidos. A supervalorização do que é estadunidense, como a música,
cerveja, tipo de restaurante, roupas, filmes, enfim, tudo se reflete também nas
escolhas culturais. Assim, valoriza-se uma festa que não é nossa, e deixa-se de
lado um feriado que é muito mais que religioso, já fazendo parte de nosso
folclore. Devemos incentivar e festejar nossa cultura, sem nenhuma afirmação
fascista ou xenófoba de eliminar qualquer elemento cultural que venha de fora.
Até porque, a característica marcante de nosso país é a mistura. Todavia, não
podemos deixar totalmente de lado nossa cultura.
Mas como nenhum império durou para sempre, esperamos o fim da
supremacia dos """Americanos""", tanto na
economia como na cultura. Até lá, seguiremos imitando o que vem de cima, sem
capacidade de pensar e criar, apenas repetindo. Até porque, por essas
terras, quando o povo faz uma travessura não ganha doces, reza pra São Cosme e
São Damião.

