quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Quem é 20 de novembro? Consciência!



Por Diogo Rodrigues e Sandro Parente.


Zumbi foi um dos poucos heróis da história negra que os nossos dominantes permitiram se perpetuar pelo tempo. Outros com certeza existiram, porém foram consumidos com o tempo e pelo desuso. Uns até questionam a real existência do quilombo dos palmares e até da existência do próprio Zumbi, mas o que importa nessa história de existências ou não?

O que importa é a representatividade, o mito, o imaginário que gera o gancho que permite a reflexão e a discussão sobre o que foi e o que é a luta de resistência do povo negro nesse país. O Zumbi poderia ser o Luiz Gama, José do Patrocínio, João Cândido, Tereza de Benguela, Laudelina de Campos Melo ou Mãe Menininha. O que importa para o dia 20 de novembro é a luta do povo negro na resistência, na história, música, religião etc.

É dia de discutir nuances do movimento negro, de ver, ouvir e sentir a dor e o prazer de ser negro nesse país. Nada mais justo, logicamente, que um dia para os movimentos organizarem o seu dia com atividades para toda a população poder participar, questionar e discutir o que é a questão racial no nosso Brasil, como ela se dá e quais as suas consequências para toda a população brasileira. Esta aí um feriado legitimo e que se justifica pela sua questão cidadã.

“Aaaah, meu bom juiz/ Não bata este martelo nem dê a sentença/ Antes de ouvir o que o meu samba diz”
É diante de todas essas convicções que me torna incompreensível a decisão do TJ-PR que revogou o dia 20 de Novembro como feriado na capital Curitiba a pedido da Associação Comercial estadual e do Sindicato da Construção Civil do Paraná alegando perdas de R$ 160 milhões ao dia de paralisação. Quem tem tantos feriados que podem perder seus feriados por feriados mais justificáveis a toda a sociedade, que remetem a cidadania, é a igreja católica, por exemplo, que possui diversos feriados ao longo do ano ou quem sabe o dia do próprio comércio, já que gera prejuízo.

A consciência contra o racismo, contra homofobia, machismo e pela valorização do indígena, entre outros, são quem merecem mais dias para mobilizar a população nacional pelas suas demandas, que olhando do ponto de vista de avanços sociais, merecem mais prioridades, visto que estes passam por uma proposta de inclusão, dismitificação de estereótipos e reconhecimento nacional enquanto segmento populacional desprovido de atenção pública.

Engraçado. Dia 15 de novembro enforcamos, ops, comemorarmos o dia da Proclamação da República. República que não foi proclamada, mas sim a primeira demonstração da insatisfação dos militares no país. Qualquer dúvida basta pesquisar nas páginas do livro “1889”, do Laurentino Gomes, o “historiador” mais queridinho do momento. Qual seria a reflexão – se você já fez – sobre a Proclamação da República? Que futuramente o próximo descontentamento militar acarretaria na “Revolução de 64”?

Agora, voltando para questão da etnia racial, verificamos que é uma questão extremamente relevante, desde o período colonial até a vanguarda. No último domingo – 17.nov.13 – Ancelmo Gois soltou a seguinte nota:

Desigualdade racial
No último IDH, que mede o chamado desenvolvimento humano, o Brasil, como sempre, não fez bonito: ficou em 85º no ranking das nações. Se avaliasse só a população branca, a posição seria um pouco melhor: 66º. Mas se abrangesse apenas os pretos e os pardos iria ainda mais para a rabeira: 103º. Os dados são de Marcelo Paixão, professor da UFRJ e coordenador do Laeser.”

Nota-se, então, que se trata de um dos temas mais relevantes da nossa cultura. Mas, mesmo com fartos motivos para existência do feriado, a Justiça do Paraná “enforcou” o feriado. Será que eles “enforcaram” a quarta-feira de cinzas?

Enfim. Poderia ficar dias, horas e ainda usar todas as palavras de qualquer dicionário do mundo, e ainda assim seria redundante, para falar do descaso do poder público com os segmentos populacionais brasileiros que não observam atenção do estado para as suas demandas.

Precisamos usar essas datas que marcam a importância desses movimentos e desses segmentos sociais para fazermos autorreflexão de como podemos contribuir e até onde podemos entender a opressão do outro, que é o que dignifica esse dia especial.

“É por isso que não temos sopa na colher/ E sim anjinhos pra dizer que o lado mal é o candomblé/ A energia vem do coração/ E a alma não se entrega não."

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Poeta, poetinha, camarada!


No último dia 19 de outubro o nosso querido Vinícius de Moraes completaria - se vivo estivesse – 100 anos de idade.

Várias comemorações aconteceram, de maneira justa, mas, acredito que não foram as músicas e poemas que o poetinha nos deixou como herança mais relevante. Na minha humilde opinião acredito que o “branco mais preto” tenha nos deixado o espírito despojado e sábio, uma grande marca registrada do carioca.

Faço questão abordar este ponto tendo em vista que o Vinícius quebrou o estereótipo do “menino-burguês-da-gávea-que-se-torna-diplomata-e-só-escuta-música-clássica”. Pelo contrário. A paixão pela história do Brasil e da cultura afro o fez abandonar a promissora carreira da diplomacia e adentrar para vida da arte.

Pronto! Inicia-se, então, a quebra do gelo social facultando a pessoas do seu mesmo nicho apreciarem a música “popular”, não ficando mais adstritos a norma “culta” daquela época. Além disso, Vinícius demonstrou que pessoas “estudadas” podem ter papos descontraídos – sem culpa - sobre futebol, mulher, religião etc.

Assim, tendo em vista essa quebra de paradigmas, começamos a entender melhor o espírito sério-despojado que o carioca faz questão de ostentar – inclusive – quando sai do RJ. Tudo bem que a admiração pelo carioca também englobam fatores políticos e midiáticos. Mas o Vinícius foi o marco teórico de que o carioca consegue, naturalmente, agir de maneira híbrida com as questões cotidianas, inclusive no trabalho (http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u104694.shtml).

Enfim, como admirador da arte e da antropologia, gostaria de deixar registrado por aqui o meu agradecimento pela sua existência e ter deixado o seu recado por meio do seu lirismo tão popular e sem barreiras sociais.

Existiria verdade, verdade que ninguém vê, se todos fossem no mundo iguais a você.