segunda-feira, 4 de maio de 2015

Vamos Arrumar o Nosso Quarto?


Li, reli, comentei com os meus amigos, li novamente e, até o momento, está difícil de digerir o ocorrido no município de São Francisco de Paula/RS, onde o juiz aconselhou uma das partes da demanda a trocar de advogado, tendo em vista a falta de acessibilidade naquele Fórum (http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2015/03/sem-acessibilidade-juiz-sugere-troca-de-advogado-cadeirante-em-audiencia.html).

O meu baque não é apenas pela ululante discriminação, mas sim pelo status de sacerdócio que, assim como os médicos, os magistrados possuem em nossa sociedade.

Aprendemos no início da graduação de Direito que o juiz é a encarnação da justiça, é quem, investido do poder de dizer quem está certo e quem está errado, decide os casos mais complexos, sempre podendo utilizar o Juízo de Valor, muito bem explicado pelo saudoso Miguel Reale.

Porém, verificamos no cotidiano que a lucidez para proferir uma sábia decisão é a exceção da regra, uma vez que – habitualmente – os magistrados demonstram a sensibilidade de um elefante para lidar com casos tão delicados como o presente (com todo respeito ao simpático animal de tromba).

O pior do imbróglio é o desabafo do nobre colega, ao afirmar se sentir prejudicial à justiça. Tudo isso por causa da decisão imediatista do Exmo. Carlos Eduardo Lima Pinto que, in casu, poderia utilizar uma das Fontes do Direito, o Costume, para determinar todas as adaptações e acessibilidades para as pessoas com deficiência.

Por falar em costume, lembrei-me do Prêmio Innovare, que desde 2004 fomenta a prática de métodos alternativos de gestão da política judiciária. Resolvi, então, fazer uma pesquisa do histórico das edições daquele programa (http://www.premioinnovare.com.br/premiacoes/) a fim de encontrar alguma proposta voltada as pessoas com deficiência e – inclusive – acessibilidade aos mesmos. Seria melhor não ter pesquisado.

O tema de 2008 chegou a chamar a minha atenção, sendo este “Justiça Para Todos: Democratização do Acesso à Justiça e Meios Alternativos para Resolução dos Conflitos”. O nome bateu na veia. Porém, nenhum trabalho exposto entre os finalistas dizia algo voltado às pessoas com deficiência, tampouco acessibilidade ao foro.

Portanto, alguma coisa não está “casando”. Num país – em desenvolvimento – onde a mídia gosta de comparar nossas medidas socioeducativas com aquelas aplicadas nos EUA e Reino Unido, não chegar a debater a – literal – estrutura do foro e demais repartições públicas, que – também literalmente – são a base de qualquer política, é um disparate.

Acredito que fazendo o trabalho de base, estaremos mais aptos a discutirmos tais questões e, consequentemente, diversas pessoas (inclusive muitos operadores do direito) deixarão de se sentir prejudiciais à Justiça, o que é muito prejudicial à Democracia.


Se já dizia Bill Gates, há tempos, que “antes de salvarmos o mundo, temos que arrumar o nosso quarto”; eu digo agora: não há quarto sem cama. Não há Justiça sem rampa.