terça-feira, 30 de outubro de 2012

DOÇURAS OU TRAVESSURAS!?


Texto em quatro mãos, feito por mim e por Rafael Cruz.




Mais um Halloween se aproxima e o folclore brasileiro se afasta cada vez mais. Segundo o dicionário, folclore significa a tradição e usos populares, constituído pelos costumes transmitidos de geração em geração.

Neste diapasão, sinto falta do hábito que acompanhei durante a infância, sendo aquela corrida das crianças atrás do tão desejado saco de doces. Alvas balas "Juquinha", as azedinhas de tamarindo harmonizadas com os suspiros, "Gamadinhos" e até pedaços de bolo de fubá num singelo saquinho de Cosme e Damião. Atualmente as crianças cultuam mais o Halloween do que a saudosa comemoração de 27 de setembro. O que estou fazendo não é um apelo religioso, mas sim apontando a perda dum folclore - morfologicamente falando - para aquilo que vem de fora.

Vivemos no país laico, que não sofre influência religiosa. No entanto, diversos hábitos do nosso cotidiano foram originados pelos costumes religiosos, como o almoço de domingo em família. Desta forma, me sinto mais à vontade de me manifestar no sentido de lamentar mais uma perda de identidade. Enquanto isso, aprendemos a comer Hot Pocket, a achar o Halloween legal, mas sem sabermos o motivo etc.

Esse fato é apenas mais um reflexo do processo de assimilação da cultura estadunidense, principalmente das classes com maior poder aquisitivo de nossa sociedade. É comum as escolas, principalmente as particulares, realizarem atividades sobre o "Dia das Bruxas", girando inclusive em torno da troca de doces. Já o feriado de São Cosme e Damião fica mais restrito às classes mais populares. No dia desses santos, por exemplo, não posso marcar nenhuma atividade em minha escola, tendo em vista que a frequência é baixíssima. As crianças do subúrbio ainda correm atrás de seus saquinhos de doces. Já nos bairros com uma população de melhor poder aquisitivo, não há quase distribuição de doces. Não me convence a justificativa que algumas religiões não acreditam em santos, por isso a festa vem sendo deixada de lado. Essas mesmas religiões acreditam em bruxas então?

A grande questão é que nossa elite sempre buscou imitar a cultura das potências de seu período; já foram Portugal, Inglaterra, França, e hoje os Estados Unidos. A supervalorização do que é estadunidense, como a música, cerveja, tipo de restaurante, roupas, filmes, enfim, tudo se reflete também nas escolhas culturais. Assim, valoriza-se uma festa que não é nossa, e deixa-se de lado um feriado que é muito mais que religioso, já fazendo parte de nosso folclore. Devemos incentivar e festejar nossa cultura, sem nenhuma afirmação fascista ou xenófoba de eliminar qualquer elemento cultural que venha de fora. Até porque, a característica marcante de nosso país é a mistura. Todavia, não podemos deixar totalmente de lado nossa cultura.

Mas como nenhum império durou para sempre, esperamos o fim da supremacia dos """Americanos""", tanto na economia como na cultura. Até lá, seguiremos imitando o que vem de cima, sem capacidade de pensar e criar, apenas repetindo.  Até porque, por essas terras, quando o povo faz uma travessura não ganha doces, reza pra São Cosme e São Damião.

3 comentários:

Rodrigo Alexandre disse...

Sandrinho,
Diferente de você, acredito que o crescimento da religião evangélica somado à violência e outros fatores sociais tenham contribuído para a quase "extinção" do Cosme & Damião.

Anônimo disse...

Sandro Parente, gostei muito do texto, parabéns para vc e seu amigo. Acho que as escolas deveriam incentivar mais o folclore nacional.

Anônimo disse...

Eu gostei muito do texto, perfeito! Concordo, também, com o Rodrigo. O crescimento da religião evangélica contribui, também, com esse fator. Não podemos esquecer a mobilização dos evangélicos contra a novela "Salve Jorge", por se tratar de um santo, mas reparem que todos ficavam vidrados em uma estória de uma mulher que traia o marido, desvia dinheiro de uma obra social, planejou seu próprio sequestro e outras maldades. Ainda sim, terminou como uma "heroína". Pergunto, pq então condenar uma novela por causa do seu título?
Voltando a abordagem do texto, realmente imitamos muito as tendências superiores. Gerando em um esquecimento das nossa origens. Eu cresci correndo atrás de doce, soltando pipa, jogando bola descalço na rua e outras coisas, que hj muita coisa não se ver.
As crianças de hj são muito mais adultas que antes.
Essa geração Y, cada vez mais conectadas com tudo e com todos, condenam um passado tão saudoso e legal que vivemos.
Abs. Diogo Jacob