Por Diogo Rodrigues e Sandro Parente.
Zumbi foi um dos
poucos heróis da história negra que os nossos dominantes permitiram se
perpetuar pelo tempo. Outros com certeza existiram, porém foram consumidos com
o tempo e pelo desuso. Uns até questionam a real existência do quilombo dos
palmares e até da existência do próprio Zumbi, mas o que importa nessa história
de existências ou não?
O que importa é a
representatividade, o mito, o imaginário que gera o gancho que permite a
reflexão e a discussão sobre o que foi e o que é a luta de resistência do povo
negro nesse país. O Zumbi poderia ser o Luiz Gama, José do Patrocínio, João
Cândido, Tereza de Benguela, Laudelina de Campos Melo ou Mãe Menininha. O que
importa para o dia 20 de novembro é a luta do povo negro na resistência, na
história, música, religião etc.
É dia de discutir
nuances do movimento negro, de ver, ouvir e sentir a dor e o prazer de ser
negro nesse país. Nada mais justo, logicamente, que um dia para os movimentos
organizarem o seu dia com atividades para toda a população poder participar,
questionar e discutir o que é a questão racial no nosso Brasil, como ela se dá
e quais as suas consequências para toda a população brasileira. Esta aí um
feriado legitimo e que se justifica pela sua questão cidadã.
“Aaaah, meu bom juiz/ Não bata este
martelo nem dê a sentença/ Antes de ouvir o que o meu samba diz”
É diante de todas
essas convicções que me torna incompreensível a decisão do TJ-PR que revogou o
dia 20 de Novembro como feriado na capital Curitiba a pedido da Associação
Comercial estadual e do Sindicato da Construção Civil do Paraná alegando perdas
de R$ 160 milhões ao dia de paralisação. Quem tem tantos feriados que podem
perder seus feriados por feriados mais justificáveis a toda a sociedade, que
remetem a cidadania, é a igreja católica, por exemplo, que possui diversos
feriados ao longo do ano ou quem sabe o dia do próprio comércio, já que gera
prejuízo.
A consciência
contra o racismo, contra homofobia, machismo e pela valorização do indígena,
entre outros, são quem merecem mais dias para mobilizar a população nacional
pelas suas demandas, que olhando do ponto de vista de avanços sociais, merecem
mais prioridades, visto que estes passam por uma proposta de inclusão,
dismitificação de estereótipos e reconhecimento nacional enquanto segmento
populacional desprovido de atenção pública.
Engraçado. Dia 15
de novembro enforcamos, ops, comemorarmos o dia da Proclamação da República. República
que não foi proclamada, mas sim a primeira demonstração da insatisfação dos
militares no país. Qualquer dúvida basta pesquisar nas páginas do livro “1889”,
do Laurentino Gomes, o “historiador” mais queridinho do momento. Qual seria a
reflexão – se você já fez – sobre a Proclamação da República? Que futuramente o
próximo descontentamento militar acarretaria na “Revolução de 64”?
Agora, voltando para
questão da etnia racial, verificamos que é uma questão extremamente relevante,
desde o período colonial até a vanguarda. No último domingo – 17.nov.13 –
Ancelmo Gois soltou a seguinte nota:
“Desigualdade racial
No último IDH, que mede o chamado
desenvolvimento humano, o Brasil, como sempre, não fez bonito: ficou em 85º no
ranking das nações. Se avaliasse só a população branca, a posição seria um
pouco melhor: 66º. Mas se abrangesse apenas os pretos e os pardos iria ainda
mais para a rabeira: 103º. Os dados são de Marcelo Paixão, professor da UFRJ e
coordenador do Laeser.”
Nota-se, então,
que se trata de um dos temas mais relevantes da nossa cultura. Mas, mesmo com
fartos motivos para existência do feriado, a Justiça do Paraná “enforcou” o
feriado. Será que eles “enforcaram” a quarta-feira de cinzas?
Enfim. Poderia
ficar dias, horas e ainda usar todas as palavras de qualquer dicionário do
mundo, e ainda assim seria redundante, para falar do descaso do poder público
com os segmentos populacionais brasileiros que não observam atenção do estado
para as suas demandas.
Precisamos usar
essas datas que marcam a importância desses movimentos e desses segmentos
sociais para fazermos autorreflexão de como podemos contribuir e até onde
podemos entender a opressão do outro, que é o que dignifica esse dia especial.
“É por isso que
não temos sopa na colher/ E sim anjinhos pra dizer que o lado mal é o candomblé/ A energia vem do coração/ E a alma não se entrega não."


Um comentário:
Muito bom. Infelizmente, feriado no Brasil só serve para dormir até mais tarde ou ir à praia...
Antes de se fazer uma reflexão sobre o dia da proclamação da república, independência e mesmo Zumbi, é fundamental saber em que dia cada um desses marcos históricos aconteceu.
Brasileiro só sabe que é dia de encher a cara na véspera porque tem "feriado". Mas não pergunte qual a razão, porque poucos saberão.
Se bem que se o comércio já tiver tomado para si a data, aí sim o povo saberá até cantar a musiquinha da leader magazine...
Quero um texto por mês aqui, hein!
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